Seu Eunício, eles voltaram.

O senhor vai desculpando eu atrapalhar o senhor, que deve ter coisa mais importante pra fazer em Brasília e Fortaleza, mas é que os sem terra entraram de novo nas terra do senhor aqui na Santa Mônica. E, dessa vez, chegaram com mais gente do que antes, um mundaréu de carro na estrada, Seu Eunício, parecia uma lagarta de fogo se movendo pelos morros na escuridão da noite.

Diz que o povo veio mais bravo por conta de que o senhor mandou soltar a boiada na lavoura deles, disseram que quebra de palavra não merece mais confiança. E também porque não receberam nenhuma resposta do governo depois dos 60 dias que prometeram.

Todo mundo já sabia que eles iam voltar né, na cidade tava um alvoroço, os sem terra comprando as coisa pra refazer os barracos, diz que tudo feliz, prometendo que ia voltar as feiras, que iam doar alimento sem veneno pro hospital, pra escola. E olha, parece que tinha até um bocado bom de gente apoiando. A gente do mercado vende mais né.

Falá pro senhor, até a polícia sabia já que eles vinham, diz que andavam de um lado pro outro nas viatura, mas na hora que disparou o comboio não fizeram nada não. Não sei, mas parece que concordam com os sem terra, seu Eunício. Da vez do despejo, eu mesmo vi soldado contrariado de tirar o povo daqui de dentro. É que eles tem parente aqui também, sabe? Gente pobre. O povo diz que gente tem preferencia na terra, mais que o gado, ainda mais quando não é pro povo comer a carne nem beber o leite. O problema é que a ideia vai pegando, Seu Eunício, vai rolando de boca em boca, e não tem quem não concorde. Quer dizer, eu mesmo não concordo sabe, mas dias atrás peguei uns homem nosso discutindo isso no alojamento.

Protegemos a casa da sede, mas num teve quem quisesse dispará um tiro. Eles era muito, com uma coragem que não sei de onde vinha, traziam na frente um faixão enorme com a foto do Dom Tomás Balduíno, aquele um que morreu e eles deram o nome do acampamento. E tinha com eles um monte de gente, com camera daquelas grande, de TV, pra tudo que era lado. Se nós fizesse algo com eles ia depois aparecer na TV de um jeito que não ia ser bom nem pra nós, nem pro senhor. Diz o povo da cidade que as universidade tudo ao redor apoia eles e a reforma agrária.

Eu mesmo, Seu Eunicio, vi de longe, mocozado no mato, a alegria daquele povo, mal entraram botaram um mundo véio de barraco na beira da mata, parece que não vão querê mais sair não, seu Eunício, tão falando que vão plantar e colher dessa vez. As mulher sem terra são bravas, seu Eunício! De facão na mão, mandando nos homem, nunca vi coragem daquela, igual onça feroza protegendo as cria.

Ó, o senhor vai desculpando, mas é bom vim trata com eles logo. Nós daqui num dá conta desse tanto de gente. A polícia, até agora nada de aparecer, querem nada de mexer com esse povo não. São morador daqui da região né. Diz que tem até daquela gente que nós tiramos daqui quando o senhor compro as terra com aquele dinheiro que o senhor ganhou.

Com os meus respeito.

Seu Argemiro Rocha, um criado seu.

Corumbá, 21 de junho de 2015.

 

Confira mais informações na página do MST

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