Radicalizar a luta democrática é fortalecer a organização popular

Manoel Dourado Bastos[*]

 

Agora que a ofensiva contra o governo do PT ganhou tons ainda mais agressivos em 2016, o debate sobre a democracia voltou à tona. Principalmente porque os cada vez mais frequentes relatos de violência estão diretamente ligados ao clima golpista que tomou conta do Brasil. Idosos, crianças e até bebês vestidos de vermelho; ciclistas, motoristas ou pedestres em direção aos seus lares; homens e mulheres no simples exercício do direito de ir e vir; sedes de partidos, sindicatos e movimentos sociais; um bispo ao fim de uma missa – há vários exemplos de pessoas que, reconhecidas (acertada ou equivocadamente) como de esquerda (ou mesmo como “comunistas”), foram violentadas, corporal ou simbolicamente, desde que os movimentos de direita ganharam novo fôlego com o acirramento do tom da marcha golpista judicial-midiática. Quando a força conservadora que busca se assenhorar ainda mais do poder político do país vira pretexto para a expressão do ódio reacionário que estrutura nossos antagonismos sociais, devemos reconhecer que o fascismo tomou corpo de vez. Seu caráter organizado e de largo alcance é indiscutível. O apoio ou a indiferença, camuflados ou descarados, de instituições com a Polícia Militar o fortalece. É cada vez mais perceptível que o frágil processo democrático brasileiro corre perigo.

Essa dinâmica política e social é bastante regressiva. O fascismo que adentra no cotidiano não se pauta em uma racionalidade tal que o torna capaz de diferenciar o comunista do petista, o militante engajado do transeunte desavisado, o Sem Terra de alguém com a camisa da seleção suíça. Para o fascista, o vermelho, em oposição ao verde-e-amarelo, é um sinal passional evidente de alguém que merece ser agredido por sua posição política. Pior ainda se a pessoa for instada por um fascista a participar de uma demonstração supostamente patriótica e anticomunista e recusar o chamado. Numa sociedade em que o linchamento é mais comum do que se imagina, recebendo inclusive apoio em cadeia nacional de televisão por comentaristas hipócritas e reacionárias, a mera recusa à participação na euforia golpista é sinal aberto para a violência.

Contudo, mesmo com a concreta vinculação entre o crescimento do fascismo nosso de cada dia e as turbulências do jogo político nacional, o ódio reacionário não começa, nem tampouco finda com o apaziguamento da crise política. Pelo contrário, seu fundamento é mais profundo e anterior. A violência contra símbolos de esquerda, mesmo contra a mera recusa a um patriotismo vulgar, se soma e dá prosseguimento a diversas outras violências estruturais e institucionalizadas que fundamentam os antagonismos sociais brasileiros. O genocídio de jovens negros, o feminicídio, o estupro, a homofobia, o extermínio da população indígena, a destruição ambiental, o acordo espúrio entre latifúndio e corporações multinacionais do agronegócio, a perseguição religiosa, o abismo social entre ricos e pobres, a violência policial, a regressão de direitos trabalhistas: esses são alguns dos outros fenômenos ligados à fundamentação patriarcal, racista e espoliadora da sociedade brasileira que convém aos reacionários em geral manter sob um discurso moralista, “de bem”.

Mulheres, negros, gays, lésbicas, transexuais, indígenas, pobres, enfim, a grande parte da população brasileira sofre cotidianamente do ódio e da violência reacionária. E esse ódio sempre teve capacidade de se estabelecer e organizar de maneiras variadas e sofisticadas – como podemos perceber, por exemplo, na fraternidade entre o aparato policial militar, fortemente armado e treinado, e o aparato midiático, devidamente ordenado e espetacularizado, a fim de promover e desenvolver, em favor das classes dominantes, os antagonismos que nos definem. Para entender a violência desferida contra símbolos clássicos dos movimentos de trabalhadores é preciso observar que estamos num estágio avançado de manutenção e solidificação das concepções reacionárias na esfera da política institucional e partidária.

É contra os tímidos avanços no esforço de superação dessas questões que os fascistas passaram a se mobilizar. Diante do visível, ainda que frágil, avanço de pautas progressistas nos últimos tempos, deu-se um gigantesco esforço organizativo por parte de forças reacionárias que perderam na última década suas principais referências no desmantelamento ou diminuição de algumas de suas organizações tradicionais. Aproveitando-se do vácuo deixado pelas Jornadas de Junho de 2013, sobre as quais as organizações de trabalhadores dubiamente colocaram – e ainda mantém – grande desconfiança, contando com forte apoio midiático, poderoso financiamento e capacitação tática e ideológica de organismos do capital internacional, surgiu uma leva de grupos reacionários que cresceu vertiginosamente nos últimos anos. Avançando na onda da crise política e econômica, trata-se de um fenômeno bem sucedido de ascensão da extrema direita.

Isso significa que debater a democracia implica em radicalizar o seu entendimento. A luta pela democracia, agora, não passa simplesmente pela defesa da simbologia dos movimentos da classe trabalhadora. Trata-se de compreender que os pequenos avanços políticos na superação de diversas questões dos antagonismos sociais brasileiros, que apontaram para a necessidade de ampliação e radicalização da luta democrática, se deram por conta da capacidade organizativa dos movimentos sociais. É preciso ressaltar a organização política de diferentes movimentos sociais que se puseram a pressionar a estrutura institucional do Estado e que, em alguns casos, resolveram mesmo adentrar nela para tentar fazer valer suas pautas. Sem esperar que a mera chegada ao governo de um partido oriundo das esquerdas passasse imediatamente à adoção de políticas progressistas, os movimentos sociais mais consequentes passaram à pressão organizada.

Nesse momento em que a crise de representatividade política ganha contornos complexos e amplos, os reacionários não perderam tempo e passaram a investir cada vez mais na organização, no que eles contam com o apoio midiático e empresarial, nacional e internacional, de grande porte. É certo que o resultado final da onda golpista que nos assombra, sendo exitosa ou não a campanha de tomada de assalto do governo, redundará em uma série de políticas de adensamento das pautas neoliberais, com a conta da crise sendo paga pelos mais pobres. Cabe a nós entender que, no estado de golpismo vigente, reforçar a organização e radicalizar a luta democrática são aspectos do mesmo processo de barrar não apenas a derrubada de um governo, mas o anseio da ascensão fascista por dar os comandos das políticas de pilhagem dos direitos sociais.

 

[*] Professor do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina e integrante do grupo de pesquisa Modos de Produção e Antagonismos Sociais

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