A agitação e propaganda na luta de classes

Douglas Estevam[1]

As crescentes e massivas manifestações de rua, as diversas mobilizações dos mais variados setores da sociedade, de organizações e movimentos populares, setores sindicais, passando por juristas, estudantes e artistas, as conformações de novas articulações e frentes, fortalecendo a oposição à tentativa de golpe apoiado pelo judiciário e pela mídia, têm indicado a possibilidade de termos adentrado em estágio conjuntural de reascenso das lutas de massas. Nesse contexto, a agitação e propaganda foi recolocada na ordem do dia.

Agitação e propaganda – agitprop – como forma de luta da classe trabalhadora tem um longa história,  passou por várias fases de desenvolvimento, no decorrer da história da luta de classes. Marx havia destacado o papel da agitação e propaganda em suas cartas. Engels, escrevendo sobre as guerras camponesas na Alemanha do século 16, já identificava formas de agitação e propaganda. Mas foi com Lenin e a Revolução Russa de 1917 que a expressão ganhou maior difusão e entrou, definitivamente, para o repertório do conjunto de formas de luta da classe trabalhadora.

Foi no livro Que fazer? Problemas candentes de nosso movimento, publicado em 1902, que a agitação e propaganda recebeu maior destaque e elaboração por parte do revolucionário russo. O debate sobre a agitação e propaganda que Lenin trava nesta obra não era um tema secundário. Fazia parte de uma  das questões centrais na definição do tipo de partido e no processo de construção do mesmo, da elaboração da estratégia revolucionária e na sua concepção de educação das massas. As correntes revisionistas existentes no seio do partido concebiam a agitação somente como uma luta por pautas econômicas, corporativas e sindicais, posição do grupo historicamente conhecido como economicista e associado ao espontaneísmo das lutas. Lenin criticava o limite que a luta estritamente econômica representava para a formação da consciência e organização da classe, restringindo a articulação com o conjunto das pautas da sociedade, com as lutas de outros setores da classe, como estudantes, camponeses, numa articulação que apontaria para um processo de transformação mais amplo da sociedade.

Estas eram algumas das funções atribuídas por Lenin à agitprop, que contribuiria para a construção de um instrumento político, de uma organização revolucionária,  implementando a estratégia da organização e exigindo do agitador e propagandista uma profunda elaboração e formação teórica, o entendimento do objetivo estratégico do movimento, o conhecimento do povo, a capacidade de trabalhar para elevação do nível de consciências das mesmas, e de se educar com elas contribuindo no processo educativo.

Com a revolução de 1917, a agitprop conheceu uma surpreendente multiplicação de suas formas de intervenção. Multiplicaram-se a participação de setores sindicais, grupos do exército vermelho, surgiram os barcos e trens de agitação, a utilização massiva dos jornais, rádios, cinema, música, variadas formas de teatro, dança, atividades esportivas, realizadas por jovens, crianças, grupos feministas, de bairros, em fábricas, nas aldeias, entre os camponeses, em cooperação com artistas de variadas linguagens. Esse processo elevou a agitação e propaganda a um novo patamar, ampliando sua importância na formação de uma cultura política que contribuía para a consolidação de valores de uma nova sociedade.

No Brasil, um dos momentos mais fortes desta experiência de agitprop se deu na década de 1960, no bojo do ascenso das lutas populares pelas reformas de base, protagonizadas no campo pelas Ligas Camponesas, fortalecidas nas cidades pelas mobilizações sindicais e organizações estudantis e de jovens, vinculando as lutas aos processos de educação popular incentivados por Paulo Freire, surgindo novas organizações políticas e culturais, como os Movimento de Cultura Popular (MCP) e os Centros de Cultura Popular (CPC), sendo Augusto Boal um de seus expoentes.  Nestes anos, a agitação e propaganda experimentou um de seus momentos mais produtivos, diversificados e massivos, com contundente poder de intervenção. O golpe de 1964 interrompeu esse processo de protagonismo da classe trabalhadora e dos setores populares.

O regime ditatorial foi derrubado duas décadas depois pelo reascenso das lutas de massas, que teve seu ponto culminante em 1989. Contraditoriamente, no auge desse reascenso, algumas forças de esquerda, principalmente as partidárias,  abriram mão da agitação e propaganda como meio de organização, formação, educação e elevação da consciência social, preferindo apostar em estratégias de marketing político, sem confrontar o monopólio da mídia, enfraquecendo a mobilização e organização populares e limitando-se a uma reduzida redistribuição de rendas. A atual conjuntura demonstra os limites dessas opções.

No MST, há mais de 10 anos, há um esforço em recuperar a experiência histórica dos/as trabalhadores/as em agitprop, assim como construir novas técnicas e linguagens apropriadas para os desafios da luta de classes hoje. A marcha à Brasília de 2005 foi um marco neste processo e teve continuidade desde as ações nos estados até o quinto e o sexto Congresso Nacional do MST e se consolidam com a orientação de construção de brigadas nacional e estaduais.

A recuperação da agitprop no contexto das lutas atuais, nos marcos da tradição histórica da luta de classes, pode nos apontar caminhos para os desafios de nosso tempo, para avançarmos em nossas lutas, para superarmos os limites e equívocos do passado e consolidar a implementação do projeto de uma nova sociedade da classe trabalhadora.

 

Sugestões de leitura

Lenin. Que fazer? Editora Expressão Popular,2010.

Douglas Estevam, Iná Camargo Costa e Rafael Villas Bôas. Agitprop: cultura política. Editora Expressão Popular, 2016.

 

[1]Militante do Coletivo de Cultura do MST e pesquisador do grupo Modos de Produção e Antagonismos Sociais. Texto publicado inicialmente no Jornal Sem Terra, edição de abril/2016.

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