Brasil X Haiti pela Rede Globo: uma narrativa sub-imperialista

Rafael Villas Bôas[1]

 

No início do jogo de quarta-feira, 08 de junho de 2016, o narrador Galvão Bueno e os comentaristas davam como mais que certo, como obrigação, a vitória sobre o Haiti. E teria que ser com goleada! Pelo tom desdenhoso que todos da equipe da Globo se referiam à seleção profissional do Haiti, o que se entrevia era mais que um jogo: uma narrativa de poder.

Tratado pelos comentaristas como frágil e inexperiente, o time profissional do Haiti começou a partida jogando, ora pasmem, de igual para igual. Uma seleção de homens grandes, fortes e rápidos, mas que não merecia nenhum comentário otimista, nem sequer a máxima atual de que o futebol é uma caixinha de surpresas e que não se pode mais prever o resultado de um jogo como antigamente.

Depois dos quatorze minutos os gols começaram a sair e o placar foi uma goleada de 7 X 1 para o Brasil. A seleção goleada pela Alemanha por 7 a 1 na Copa do Mundo, e em seguida por 3 a 0 da Holanda tinha por obrigação vencer por goleada o Haiti: uma espécie de complexo de superioridade periférico. Ambição de ser o melhor, não mais do mundo, ao menos das Américas. Nem mais no futebol residia o sonho, a promessa de grandeza: apanhamos da Alemanha, mas batemos no Haiti!

Para além do jogo, os comentaristas se empenhavam em falar da miséria do Haiti: enquanto Ronaldo lembrava do “Jogo da Paz” em 2004, imagens dos jogadores desfilando em tanques de guerra (!) das tropas da ONU apareciam, com os haitianos correndo aos milhares ao redor dos tanques gritando os nomes dos jogadores. “Foi a maior homenagem que a seleção já recebeu na história, segundo o técnico na época, Carlos Alberto Parreira”, lembrava emocionado um comentarista, afirmando que  via meninos saindo do esgoto à céu aberto (!), de containers-moradia com temperatura à 50º para gritar o nome dos jogadores de futebol da seleção. “Aí um passe que chega a ser até grotesco”, diz Galvão se referindo a um passe que saiu pela lateral de um jogador da defesa em tentativa de saída em contra-ataque.

Como não bastasse, o grupo recebeu o convidado de honra Luciano Huck, que tinha visitado o Haiti e se surpreendido com a miséria da população: “Sai de lá com a sensação que a humanidade não deu certo. Fiquei muito impressionado com o poder da miséria. O exército brasileiro está fazendo um trabalho maravilhoso de pacificação…”.

“O que a gente fez foi chamar a atenção do mundo para esse país completamente abandonado e cada vez pior”, dizia um lacônico Sr. Huck.  Há mediações subliminares nessa afirmação imperativa: o país que sofreu mais de trinta golpes de estado desde que fez a revolução e que hoje conta com tropas da ONU na missão Minustah liderada pelo Brasil é representado como o país frágil, inexperiente, de destino natural para a derrota, por goleada.

Ocorre que depois de 3 a 0 o Haiti chegava no ataque, chutou a gol, ameaçava a área brasileira, seus laterais ousavam fintas sobre a defesa brasileira. Mas nada disso merecia comentário. De onde viria aquela altivez? Com vinte e cinco minutos do segundo tempo a seleção haitiana marca um gol, após rápida jogada pela lateral esquerda. Nenhum comentário ao mérito da jogada: foi tratada quase como uma exceção, o gol foi tolerado com complacência, o primeiro do Haiti sobre o Brasil num histórico de três goleadas. Galvão somava: está 16 a 01, num grande esforço de nos distanciarmos, em tudo, do Haiti – ele não pode ser aqui!

Por que devemos respeitar a seleção haitiana? Não por causa da impressão que a humanidade não deu certo. Essa seleção de homens grandes, fortes e rápidos deve ser respeitada porque representa um país que teve a ousadia de fazer uma revolução contra a colonização europeia, contra o imperialismo da nascente república burguesa da França, e contra a escravidão, tudo de uma vez: abolição e independência. Tudo o que não fizemos, Galvão Bueno e Luciano Huck. Nossa tradição de modernização conservadora, por meio de contrarrevoluções preventivas, de acordos pelo alto, nos impede de compreender a relação de causa e consequência da situação do Haiti.

O que vimos por meio do jogo foi o tradicional discurso arrogante de naturalização da desigualdade sócio-racial operado pela Rede Globo. Um dos maiores impérios midiáticos do mundo, recordista em exportação de telenovela, sabe como ninguém naturalizar a miséria e legitimar a ação sub-imperialista daquela mesma força armada que deu condições para o nascedouro do império televisivo da Globo, em 1964.

 

[1] Professor da UnB e pesquisador do grupo Modos de Produção e Antagonismos Sociais

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