Assentamento Itamarati entregará quase um milhão de quilos de alimentos para população urbana de Ponta Porã

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Entrega de alimentos produzidos no assentamento Itamarati. Crédito: Ponta Porã Informa

André Aparecido Bispo¹

Senti-me na obrigação, enquanto assentado em um dos maiores assentamentos de Reforma Agrária do País, de apontar alguns elementos concretos que possam ajudar a entender que a Reforma Agrária tem prosperado, e muito. Ao contrário do que proferiu o jornal “O Globo” na matéria intitulada “Do antigo império da soja a maior favela rural do interior do Brasil” em referência ao assentamento Itamarati, publicado em maio de 2013, o assentamento a cada dia que passa tem mostrado sua capacidade produtiva e elevado significativamente a renda da maioria das famílias do assentamento.

No entanto, mesmo mostrando na prática que a distribuição de terras é a saída para eliminar a fome no mundo, vários veículos de comunicação têm buscado a todo o momento desqualificar o Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Recentemente, nossa comunidade foi contemplada com essa “pérola” de reportagem que buscou diminuir  o assentamento lhe outorgando o título de “favela rural” no intuito de invisibilizar o programa e, principalmente, os protagonistas que ali residem. Cabe ressaltar que é muito cômodo vir ao assentamento e deduzir informações sem conhecer, na essência, a luta cotidiana das famílias assentadas.

Esse tipo de reportagem tem modo de produção claro, engana-se quem acha que não. O modo de produção que defende é o modelo do agronegócio, um modelo baseado na monocultura da soja, da cana, do milho, nas sementes transgênicas, na poluição dos rios, na poluição do ar, água, na anulação da vida como tem ocorrido com os assassinatos recentes de indígenas ocorridos em Caarapó, na apropriação de terras indígenas e na grilagem de terras.

Nesse sentido, esse modelo de produção tem ampliado suas fronteiras agrícolas e com isso vem diminuindo a área de produção de alimentos para alimentar a  população. Conforme já indicava Gerson Teixeira no ensaio “A sustentação Política e Econômica do Agronegócio no Brasil” houve uma redução na produção de grão de arroz, feijão e trigo nas safras de 1990 a 2013. Segundo Teixeira a área do arroz que era de 14% reduziu em 2013 para 6%, a área do feijão que era de 4% em 1990, em 2013 reduziu para 1,5% e o trigo de 6% para 2,3%, portanto, como já apontam claramente outros pesquisadores a alta dos preços dos alimentos em especial o feijão está diretamente relacionado a diminuição da quantidade de  área plantada e o aumento de mais de 40% da população brasileira e não a mera especulação, como tem feito a mídia burguesa.

Nesse contexto, o Assentamento Itamarati, localizado no Distrito Nova Itamarati, Município de Ponta Porã, é prova que a Reforma Agrária deu certo, pois o assentamento entregará nos próximos dias as famílias de Ponta Porã quase um milhão de quilos de alimentos hortifrutigranjeiros, com mais de 60 variedades de produtos todos produzido no assentamento Itamarati. A ação faz parte do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) que, recentemente, recebeu um corte do governo golpista de mais 140 milhões. Mesmo com o corte no montante a ser repassado para a entidades proponente dos projetos serão beneficiadas em Ponta Porã mais de cinco mil pessoas cadastradas nos Centro de Referencia de Assistência Social (CRAS), e participantes do Programa Cesta Verde (PCV) que atualmente beneficia duas mil pessoas diretamente, por mês. As entidades responsáveis para organizar a produção desses projetos são três cooperativas e três associações do assentamento cabendo à Conab a fiscalização e acompanhamento dos mesmos.

É importante observar que, no ano de 2013, tínhamos participação no projeto (PAA) com oitenta famílias, no atual momento e de acordo com as entidades e a Conab estão sendo beneficiadas em torno de 200 famílias. O que significa na prática que são mais de um milhão e meio de reais que entrará na renda das famílias participantes do Programa PAA.

Cabe destacar que estamos referindo apenas a uma ação do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), não mencionamos aqui as pessoas que entregam no Programa de Alimentação Escolar (PNAE) e não estão mensuradas as famílias que vendem seus produtos nas feiras em Ponta Porã e no núcleo urbano do assentamento.

Diante dessas informações fica evidente que o jornal “O Globo” tem total desconhecimento da realidade do assentamento e que veio ao mesmo com a intenção clara de desqualificar o programa de Reforma Agrária e de desqualificar os protagonistas que aqui residem. Nesse sentido, convido qualquer meio de comunicação que tenha interesse em conhecer o assentamento para entender o dia a dia das famílias. Mas que ao conhecer, ao publicar possíveis matérias, relate de forma verdadeira e não busque diminuir essas ações que tem mudado radicalmente o modo de produção de uma antiga fazenda que tinha seu modelo de produção pautado na monocultura e na exploração do trabalho para uma produção diversificada e em processo de transição do convencional para o agroecológico.

 

[1] André Aparecido Bispo é assentado e militante do MST, graduado em Licenciatura em Educação do Campo pela UnB-Planaltina. Possui especialização em Cultura, Arte e Comunicação pela UnB-Planaltina e atualmente trabalha como gestor de projetos em cooperativas do assentamento Itamarati.

 

Referências

Revista da Associação Brasileira de Reforma Agrária – ABRA (A sustentação Política e Econômica do Agronegócio no Brasil-Gerson Teixeira). Julho de 2013.

Site: http://consultaweb.conab.gov.br/consultas/consultatransparenciapaa.do?method=consultarCPRMunicipio&novaConsulta=true

http://oglobo.globo.com/brasil/de-antigo-imperio-da-soja-maior-favela-rural-no-interior-do-brasil-8294519

http://www.pontaporainforma.com.br/noticias/ponta-pora/governo-municipal-entrega-duas-mil-cestas-verdes-por-mes

http://www.pontaporainforma.com.br/noticias/politica/receita-federa-doa-caminhao-para-prefeitura-de-ponta-pora

http://www.pontaporainforma.com.br/noticias/politica/p-pora-assistencia-social-entrega-mais-uma-remessa-de-cestas-verdes

 

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