Breve relato sobre insurgência estudantil em São Sebastião (DF)

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Fachada do IFB São Sebastião ocupado – Wilson Dias/Agência Brasil

            Hoje eu e a professora Rayssa Aguiar, ambos integrantes do Coletivo Terra em Cena, fomos participar de um debate sobre a conjuntura e falar sobre agitação e propaganda para o grupo de estudantes que participam da ocupação do campus de São Sebastião do Instituto Federal de Brasília (IFB).

            Ao chegar na cidade vimos um bloqueio da avenida principal pelos estudantes do “Centrão”, uma das escolas públicas da cidade, que se mobilizavam pela primeira vez sobre a crise política e as propostas que ameaçam a educação pública, encorajados pelas mais de 1000 escolas e institutos ocupados.

           Enquanto preparávamos o material de projeção para exibir filmagens de intervenções de agitprop escutamos as palavras de ordem de uma marcha que se aproximava. Eram os estudantes do Centrão vindo conhecer o IF ocupado, se solidarizar com a ação, aprender com a experiência, e participar da atividade de formação.

          A ocupação do IF de São Sebastião foi puxada por um grupo de meninas, adolescentes, e contou com o apoio de muitos estudantes, professores e técnicos. Ali estava, por exemplo, o coordenador de um dos cursos do IFB, colaborando com as mediações dos espaços de formação, respeitando o protagonismo da ação política das estudantes. O professor estava completamente ciente do salto no processo de formação daquelas estudantes. Volta e meia ele me dizia que era a primeira vez que tal ou qual menina pegava um microfone para falar numa reunião.

            Nos contaram que a mobilização no Centrão começou depois de uma visita de professores e estudantes do campus do IFB de São Sebastião. Com nove dias de ocupação aquela comunidade ocupada já dera início ao trabalho de base, e colhia naquele momento o primeiro resultado, com a visita massiva dos estudantes do Centrão. E antes disso, o campus de São Sebastião tinha recebido a visita de estudantes que estão ocupando o campus de Águas Lindas, do IFG. 

            Presenciamos uma conversa entre os dois grupos, coordenada pelas estudantes que puxaram a ocupação no IFB. A convicção sobre as razões da luta, o didatismo da explicação, a preocupação com a explicação do dia a dia da rotina da ocupação, desde a segurança, passando pelos espaços de formação política e técnica, até o diálogo com a sociedade, foi de impressionar.

          Falamos sobre as razões do golpe midiático-parlamentar-jurídico-empresarial, sobre as influências externas em razão de interesses geopolíticos (pré-sal), sobre os dispositivos do golpe de 1964 que não foram desativados e que, no contexto atual, foram fortes fatores de desencadeamento do golpe, e sobre o esquema explicativo de Naomi Klein, sobre a doutrina do choque,  que ajuda a entender não apenas a conjuntura nacional, mas também as práticas políticas do Governo do Distrito Federal, que investe na precarização das estruturas públicas para legitimar o argumento da necessidade da privatização ou, no mínimo, da gestão privada de estruturas públicas.

            Mostramos em vídeo uma intervenção de teatro invisível que a Brigada de agitprop Semeadores realizou em 2007, na Câmara Legislativa do GDF. Os estudantes viram com muito interesse. Conversamos sobre as táticas para diálogo com a sociedade, sobre os limites da democracia burguesa, sobre o sistema midiático monopolizado. Também falamos sobre o teatro jornal e outros métodos de agitprop e conversamos sobre possibilidades de intervenções, em diversos tipos de espaço.

            Se tivéssemos mais tempo, poderíamos ter feito o jogo do quebra-consenso, para treinar com os estudantes os argumentos pró e contra as propostas, e simular diálogos com a comunidade, em reuniões, em assembleias, e criar situações simuladas de entrevistas para mídia empresarial, discutindo os mecanismos de edição, de manipulação.

            Há diversas oficinas ocorrendo, com muitas pessoas se voluntariando para ensinar o que sabem, a partir da demanda dos estudantes. Lyvian, atriz da Cia Burlesca, está coordenando uma oficina de teatro. Professores vão até lá aprofundar a compreensão do que está em jogo com a PEC 241, etc.

            Em síntese, é uma experiência formativa de alta intensidade concentrada em poucos dias, muito aberta para articulações, para intercâmbios, e que demanda receber o máximo de solidariedade possível para que se fortaleçam diante das inúmeras formas de pressão que estão sofrendo, pela mídia, por diretores, pelo governo, pelas famílias, pelos que não aderiram.

          Por assumirem uma posição enquanto sujeitos políticos, suspendendo o tempo das estruturas em que aprenderam a conviver como clientes, como usuários passivos, os estudantes se deslocaram da visão acomodada sobre o lugar das coisas no sistema, e se percebendo em luta, vendo como os que lutam são hostilizados, se abre um amplo espaço de compreensão propenso ao fortalecimento de muitas articulações com outros segmentos, disposto a manter o acúmulo quando as ocupações cessarem e a vida “voltar ao normal”.

         Elas e eles têm plena consciência de que estão participando de um momento histórico, que podem abalar o governo federal com a insurgência em escala nacional, e não estão dispostos a parar antes de lograrem conquistas objetivas.

Rafael Villas Bôas

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