Carta aos estudantes de Comunicação sobre Agitprop e a conjuntura do país

Entrei no curso de Comunicação da UnB em 1996. Somando graduação e mestrado passei sete anos na FAC. O fato de retornar no dia 31 de outubro para lançar o livro “Agitprop: cultura política” (Expressão Popular, 2015), organizado em conjunto com Douglas Estevam e Iná Camargo Costa, me levou a refletir sobre o curso em nosso país, e a relação dele com a democracia.

No período em que fui membro da diretoria do Centro Acadêmico da Comunicação (1996-1999) procuramos colocar em ordem os arquivos do CACOM, e descobrimos um debate, datilografado, sobre as origens dos cursos de Comunicação no Brasil, e sobre a proposta da Faculdade de Comunicação de Massas da UnB, tão pioneira quanto era o projeto geral da UnB, considerado a vanguarda da reforma universitária – uma das principais reformas de base defendidas pelos setores populares e que Jango indicava a intenção de com elas se comprometer quando seu governo foi destituído pela força das armas em 1964.

O conteúdo do material nos era revelador, levando em conta nosso estágio  inicial de formação e muito centrado nos aspectos técnicos da profissão. Estava dito ali que os cursos de publicidade foram criados no momento em que o processo de substituição de importações promovido na economia brasileira começava a inundar o país de mercadorias, e para isso, era necessário fabricar uma sociedade de consumo no país, estimulando desejos de consumo por mercadorias até então não necessárias para a reprodução da vida social.

Numa sociedade de maioria analfabeta e em transição forçada do campo para a cidade, a publicidade brasileira cumpriu papel importante na fabricação de sonhos de consumo e ambições de ascensão social. Os cursos de Relações Públicas eram criados para mediar as relações entre empresas e clientes: era necessário otimizar as relações de produção. Enquanto o curso de jornalismo era mais antigo, e tinha como função formar profissionais para serem absorvidos pelas empresas do ramo.

Escolhi o curso de publicidade, com pretensões artísticas, querendo empenhá-las em algo prático, antevendo certa função social para a venda de mercadorias. Com menos de três semestres estava trocando de curso, migrando para o jornalismo, porém, desencantado, ou menos ingênuo. Na época já estava envolvido com a pesquisa, integrando um grupo, incentivado por colegas mais velhos, sendo o principal deles o hoje professor do curso de Comunicação da UFPB,  Pedro Benevides.

No Jornalismo me lembro que volta e meia éramos chamados para assistir palestras de diretores e editores de grandes jornais da mídia empresarial. Era um furor! Parte dos docentes via os nomes consagrados da imprensa como os colegas bem sucedidos do mercado, enquanto a tarefa da universidade era formar os novos quadros para aquelas empresas. Se sentindo tão prestigiados, os editores falavam conosco como patrões futuros, com o tom superior de quem dá conselhos para quem quer se empregar naqueles meios. Como se fosse a ambição, única, de todos.

Era a época da chegada da internet no Brasil. Cartas postais ainda eram meios que usávamos para nos comunicar com colegas de outros cursos espalhados pelo Brasil, na militância dos encontros nacionais e regionais de comunicação. Não estava colocada a opção dos blogs alternativos, etc.

 Mas, naquele documento que descobrimos no CACOM ficamos sabendo, como um segredo na garrafa, que a Faculdade de Comunicação da UnB, bem como o conjunto da UnB, não tinha sido concebida para se tornar o que era naquele momento. As pretensões da Faculdade de Comunicação de Massas eram maiores, e os quadros do jornalismo, do cinema e outras técnicas e linguagens tinham planos de aprofundar os vínculos entre comunicação e democracia.

 O Brasil era um país que não tinha completado, na década de 1960, ainda o primeiro século da abolição da escravidão, que não fez a reforma agrária, não tinha alfabetizado a maioria da população e, naquele momento, era capaz de incluir apenas 1% da juventude no ensino superior.

Os professores que chegavam à UnB estavam comprometidos com as contradições e com os impasses do país, e queriam ampliar e aprofundar o sentido de suas áreas de ofício. Figuras como Pompeu de Souza, Nelson Pereira dos Santos, Jean Claude-Bernadet, Paulo Emílio Sales Gomes aqui aportavam, em sintonia com o projeto de país que amadurecia de baixo para cima.

Passados exatos vinte anos do momento em que entrei na UnB, estamos nós a viver um golpe midiático-jurídico-parlamentar-empresarial no país, que ameaça retroceder às frágeis conquistas da Constituição de 1988 e já dá exemplos do Estado de Exceção em que poderemos viver pelos próximos anos, ou décadas.

O monopólio dos meios de comunicação, a reforma agrária, a doutrina militar herdada do golpe de 1964, tudo isso poderia ter sido alterado em doze anos de governo federal comandado por um partido de centro-esquerda. Todavia, a opção pela conciliação de classes não permitiu o salto democrático e agora mostra as funestas consequências da opção. Os dispositivos do golpe de 1964 são os mesmos que, fortalecidos após 52 anos, operam para criar o estado de normalidade com que se impõe o atual estado de exceção. Não custa lembrar que a Rede Globo de Televisão foi criada com capital ilegal estadunidense um ano depois do golpe, em 1965.

A Globo e outras empresas da mídia empresarial, ou seja, aquelas mais interessadas na garantia de seus lucros que nas conquistas coletivas da democracia, conseguem façanhas no Brasil: transformam luta pela democratização dos meios de comunicação em sinônimo de gesto autoritário, quando escutam controle social da mídia reproduzem como ameaça à liberdade de expressão, omitindo o rigoroso controle exercido pela sociedade sobre a mídia na maioria dos países desenvolvidos. Também sabem atenuar a força destrutiva do projeto modernizador que defendem: falam de ruralistas, uma expressão meio bucólica, para se referir à junção dos arcaicos latifundiários com empresas transnacionais e fazendeiros brasileiros: “ruralismo” parece amenizar, conciliar o ser humano com a natureza, com os valores do campo quando na verdade o agronegócio amplia desigualdades, destrói em larga escala a natureza, depende do alto uso de agrotóxicos. A mídia brasileira produz peças de ficção que, no entanto, a despeito da irrealidade de seus significados, produzem a perversa função de legitimar a realidade desigual, e omitir as causas da desigualdade.

Nós aprendemos que o marketing é uma estratégia de vendas, e uma estratégia de comunicação com a sociedade. Me lembro de capas de livros de marketing com tanques de guerra, falando de táticas militares adequadas à venda de mercadorias. O marketing político se tornou a linguagem hegemônica, e atropelou a tradição política de busca do contato, do diálogo direto com as pessoas, que fosse também organizativo, por meio do trabalho de base.

O livro “Agitprop: cultura política” apresenta uma tradição de formas de comunicação com a população que eu não conheci no curso de Comunicação, mas que soube depois que, em outros países, o agitprop é disciplina de cursos, é área temática de pesquisas, etc. Traduzimos peças de Teatro Jornal do Coletivo Blusa Azul, formado por estudantes de Jornalismo, em 1923, na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Em seis anos, até 1928, o Blusa Azul se apresentou mais de vinte mil vezes, para mais de dez milhões de pessoas em território soviético e, após excursão pela Alemanha deixou mais de oitenta grupos formados naquele país. Os pesquisadores descrevem uma cultura política em que há protagonismo dos trabalhadores na produção de seus bens simbólicos, em que há consciência dos sindicatos sobre a importância de financiarem a produção cultural dos trabalhadores, sem ilusões de universalidade da produção de mercadorias culturais e ideológicas produzidas pelos meios de comunicação empresariais da classe dominante.

Essa experiência, que agora conseguimos disponibilizar por meio do esforço coletivo e voluntário de tradutores militantes, nos faz pensar sobre o rumo que nossa democracia tomou no país. Após o golpe, sob o impacto do acordo MEC-USAID celebrado pelos militares com o governo dos EUA nossas universidades foram sendo adequadas para a finalidade de capacitar a força de trabalho para as demandas do mercado, de tal modo que as experiências forjadas por aqueles que se contrapunham a esse projeto foram invisibilizadas ou secundarizadas. No Brasil, por exemplo, Augusto Boal construiu o Teatro do Oprimido reunindo um conjunto de técnicas em parte criadas por ele, e em parte recuperadas do repertório da agitação e propaganda, como o Teatro Jornal, mas por muito tempo nem sequer nos cursos de Artes Cênicas seu trabalho foi estudado com a profundidade que merece.

Pelos colegas da época de movimento estudantil que hoje são professores – Fernando Paulino, Thiago Quiroga e Sivaldo (UnB), Manoel Dourado Bastos (UEL), Pedro Benevides (UFPB), dentre outros – imagino que a luta pela democratização da comunicação deve estar mais fortalecida que há duas décadas atrás, entretanto, se cresceram as possibilidades de democratização dos meios de comunicação, no que diz respeito à produção e circulação de conteúdos, é certo também que o monopólio dos meios de comunicação continua eficaz em termos ideológicos, e forte em termos econômicos.

O desenvolvimento tecnológico não nos legou como consequência óbvia a democratização dos meios de comunicação. O poder no Brasil continua sendo uma mistura de concentração de terras, com concentração cruzada dos meios de comunicação, e poder de influência nos três poderes – executivo, legislativo e judiciário.

Todavia, as mudanças objetivas nas condições de produção, o maior acesso aos equipamentos de geração e transmissão de imagens, o espaço das redes sociais na internet, o perfil do contingente de novos professores de Comunicação, e a crescente descrença da população brasileira em relação à legitimidade das informações divulgadas pela mídia empresarial, associada a crise permanente do setor, fazem com que os padrões de mercado não imponham, como antes, a linha no horizonte que delimitava as fronteiras dos cursos de comunicação no país.

Por isso, tomar contato com experiências de comunicação popular de décadas passadas, que foram bem sucedidas nos propósitos que cumpriram, pode nos fazer indagar sobre a validade das apostas que fizemos, e nos propor caminhos até então desconhecidos, do encontro da comunicação com a democracia.

Brasília, 02 de novembro de 2016.

Professor Rafael Villas Bôas

Campus de Planaltina da Universidade de Brasília

            Pesquisador dos grupos Modos de Produção e Antagonismos Sociais

e Terra em Cena: teatro, audiovisual e educação do campo

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