Nota da Rede Internacional Teatro e Sociedade contra a criminalização da luta popular, em defesa da democracia

A Rede Internacional Teatro e Sociedade formada por coletivos de teatro, grupos de pesquisa e movimentos sociais do Brasil, da Argentina e do Uruguai vem a público manifestar repúdio ao conjunto de agressões à população brasileira ensejados pelo sistema judiciário, pelo sistema repressivo policial e militar, pelo sistema midiático empresarial e pelas corporações de políticos que atuam nos parlamentos defendendo interesses privados de grandes corporações.

Desde o momento em que o governo ilegítimo, usurpador do voto de 54 milhões de brasileiras e brasileiros, tomou o poder foram desfechadas simultaneamente uma série de ataques aos direitos trabalhistas, aos marcos legais que garantem exclusividade da Petrobras na exploração do Pré-Sal, foram propostas reformas regressivas da previdência e do ensino médio, foi encaminhada a PEC 241 na Câmara dos deputados e PEC 55 no Senado de congelamento por duas décadas das metas de investimento dos gastos públicos. Compreendemos o caráter tático dessa ação, que visa dificultar a reação organizada das forças democráticas e procura rebaixar o horizonte democrático impondo restrições econômicas e políticas às possibilidades de reversão da dinâmica estabelecida pelo poder do voto popular, nas eleições de 2018.

As medidas repressivas do sistema judiciário, das forças policiais e militares tem se ampliado na mesma proporção em que se ampliam as formas de luta popular e resistência, com as milhares de escolas ocupadas pela juventude brasileira, pelas centenas de campi de institutos e universidades ocupados. A justiça reage alegando que existem casos e juízes que podem atuar em regime de exceção, como Sérgio Moro e a Operação Lava Jato, o Supremo Tribunal Federal (STF) restringe os direitos de greve dos servidores públicos autorizando o corte de ponto.  Exército e Polícia fazem operações ilegais contra manifestantes levando jovens à prisão sem qualquer prova crime. Militantes de movimentos sociais são presos sem prova, criminalizados pela atitude de militarem em organizações que lutam contra as estruturas arcaicas de perpetuação do poder da elite brasileira.

A corrupção do varejo, da ordem de milhões é explorada de forma seletiva pela mídia, enquanto a corrupção de atacado, da ordem de bilhões destinados aos rentistas que lucram com a ilegítima dívida pública é invisibilizada, é desconhecida da maioria da população brasileira.

No dia 04 de novembro de 2016 a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) foi invadida pela Polícias Civil sem mandato judicial, com disparos de tiros letais como ameaça aos estudantes e à equipe da escola. Uma instituição de ressonância internacional, com parcerias com mais de quarenta universidades públicas, que recebe estudantes dos cinco continentes, tratada pela polícia como um espaço que se pode invadir de forma arbitrária, com dispensa dos mínimos rituais jurídicos que garantem aos cidadãos o direito de defesa perante os excessos do Estado.

Há cinquenta e dois anos do golpe de 1964 estamos entrando em novo regime de Estado de Exceção e, novamente, as forças populares organizadas são as primeiras vítimas, como estratégia de desmonte da resistência organizada contra a regressão da democracia.

A Rede Internacional Teatro e Sociedade repudia a criminalização aos movimentos sociais e se coloca ao lado de todas as forças que lutam contra os golpes midiáticos-jurídicos-parlamentares-militares que ameaçam a construção da democracia na América Latina.

 

Brava Companhia (SP) / Centro do Teatro do Oprimido (RJ) / Círculo de Giz Brechtiano (UFF/RJ) / Coletivo Dolores Mecatrônica Boca Aberta (SP) / Coletivo Fuzuê (UFSJ/MG) / Coletivo Terra em Cena (UnB/DF) / Companhia do Latão (SP) / Companhia Estudo de Cena (SP) / Escuela de Teatro Político (Buenos Aires/Argentina) / Grupo Crítica Literária Materialista (UEM/PR) / Grupo de Pesquisa Modos de Produção e Antagonismos Sociais (UnB/DF) / Grupo de Pesquisa em Dramaturgia e Crítica Teatral (UnB/DF) / Grupo Rizoma del Teatro del Oprimido (Buenos Aires/Argentina) / Grupo de Teatro do Oprimido Montevideo (GTO Montevideo/Uruguai) / Grupo de Pesquisa em História, Política e Cena (UFSJ/UFOP/UFMG/UNICAMP) / Instituto Augusto Boal (RJ) / Laboratório de Investigação Teatro e Sociedade – LITS (USP/SP) / Levante Popular da Juventude / Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

07/11/16

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“Agitprop: cultura política” é lançado na UnB em dia de ocupações contra a PEC do Fim do Mundo e contra o Golpe

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O dia começou cedo na Universidade de Brasília, em 31 de outubro de 2016. Pela madrugada, o campus de Planaltina foi ocupado pelos estudantes. Era o primeiro campus da UnB a ser ocupado na onda de protestos que já contava com 89 campi de universidades e institutos paralisados no Brasil e mais de mil escolas ocupadas em todo o país, em protesto contra a Medida Provisória do Ensino Médio, a PEC 241 na Câmara e PEC 55 no Senado, que estabelece o bloqueio de investimentos públicos por duas décadas, e contra os retrocessos à democracia brasileira, acelerados com o golpe parlamentar-jurídico-midiático.

Após ter participado da maior assembleia já realizada no campus de Planaltina, que reuniu os três segmentos da comunidade acadêmica, além de professores do GDF, que se solidarizavam à ocupação, o Coletivo Terra em Cena se dirigiu ao campus Darcy Ribeiro para lançar, em Brasília, o livro “Agitprop: cultura política” (Expressão Popular, 2015).

O lançamento ocorreu no auditório Pompeu de Souza da Faculdade de Comunicação. Sinal dos tempos: silenciado, ou depreciado por décadas a fio, como a agitação e propaganda (agitprop) – muito em conta da tradição stalinista que suprimiu o rico momento de experimentação da primeira década da revolução soviética, e impôs o sentido rebaixado de agitprop como sinônimo de panfletagem –, o tema passou a ser alvo de interesse de pesquisadores abertos para outras formas de comunicação popular, considerando a correlação desigual de forças na esfera da produção dos bens simbólicos.

O professor Felipe Canova, da Faculdade UnB Planaltina, iniciou a sessão exibindo parte de um documentário sobre a experiência de uma brigada de agitação e propaganda do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e do Levante Popular da Juventude que atuou em Brasília entre março e abril de 2016, período de grandes mobilizações populares contra o impeachment da presidente Dilma Roussef. O intuito era evidenciar o caráter contemporâneo do agitprop, seja pela necessidade de se contrapor à manipulação sistemática da mídia empresarial, seja pela pesquisa de formas estéticas necessárias para tornar o ato comunicativo eficaz no diálogo com a classe trabalhadora. Nas imagens do documentário pode-se ver a ênfase nas formas acrobáticas, as paródias musicais, os adereços produzidos para as marchas, as faixas, o treinamento de retórica, treinamento de corpo, tal qual as experiências soviéticas e alemãs relatadas nos textos traduzidos que integram o volume “Agitprop: cultura política”.

O Diretor da Faculdade de Comunicação, professor Dr. Fernando Paulino, demarcou a importância de ampliação das pesquisas sobre outras formas de comunicação, que foram vigorosas no passado e que podem ser de muito interesse no futuro. Levantou ainda importantes reflexões sobre o sentido da agitação e propaganda na era do SMS e do WhatsApp que, segundo ele, podem intensificar uma espécie de forma reversa de “desagitpropização”: um ativismo solitário de repasse de informações pelas redes sociais que, no entanto, não se configura como forma de confronto com as representações midiáticas hegemônicas.

A professora Dra. Elen Geraldes, de Políticas de Comunicação, da Faculdade de Comunicação da UnB, iniciou sua fala ressaltando reflexão de Hannah Arendt a respeito da importância da esfera política como espaço de luta e forma de acabar com os tempos sombrios. Destacou as diversas formas de atuação da agitação e propaganda, enfatizando o caráter político do trabalho com as diversas linguagens artísticas empenhado na busca eficaz de formas de comunicação com a população, em contraposição à função redutora que a mídia empresarial impõe às lutas populares. Finalizou sua intervenção lançando questões ao debate: “Como resistir apesar da mídia? Como resistir na mídia?”

A atriz e radialista Sheila Campos, da rádio pública Cultura FM, de Brasília, falou a partir de sua experiência como atriz que integrou grupos de teatro de agitprop na década de 1990, no período de luta contra as privatizações impostas pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, e atestou a eficácia das formas do teatro político, no sentido estético e na relação com a qualificação do debate político. À semelhança do que descreve a obra “Agitprop: cultura política”, uma suposta oposição entre “apuro estético” e engajamento político é falaciosa. O amadurecimento e múltiplos recursos das técnicas teatrais, bem como das musicais, plásticas, audiovisuais e performáticas, podem e devem pautar as preocupações e realizações de artistas engajados, cientes da ideologia imbuída nos produtos da indústria cultural, contrapondo-se à alienação desejada pelos mesmos.  E, no campo da comunicação, abordou o debate em torno da democratização dos meios de comunicação e sobre políticas da comunicação, exemplificando com o que estava em jogo no debate sobre o modelo de rádio digital a ser adotado no país, recentemente, e a exclusão da população no tocante à participação ativa desta caso o modelo implantado fosse o de software aberto, o que permitiria a existência de canais para associações, sindicatos, universidades e demais segmentos da sociedade civil organizada. Deu ainda exemplos de sua experiência na rádio Cultura sobre a luta para se contrapor às formas da Indústria Cultural.

Janderson Barros, dirigente do MST, destacou a experiência contemporânea de sua organização com o agitprop, dialogando diretamente com argumento de Iná Camargo Costa em um dos textos do livro “O agitprop e o Brasil”, que destaca dois momentos emblemáticos da experiência brasileira do agitprop: os Centros Populares de Cultura (CPCs) e as brigadas do MST. Janderson deu exemplo do que será realizado no Distrito Federal e Entorno com o trabalho de agitprop nas feiras populares da reforma agrária, que ocorrerão em Planaltina, Unaí, Formosa e Brazlândia, oportunizando ao público urbano o contato direto com os produtores camponeses, com alimentos orgânicos, sem agrotóxicos, ao mesmo tempo que promoverão debates sobre a questão da soberania alimentar, da juventude brasileira, da participação feminina, e sobre Cultura e Comunicação, com o intuito de recolocar em pauta a necessidade de construção de um projeto popular para o Brasil a partir dos interesses das classes populares.

Por fim, ressaltamos o caráter complementar entre o livro “Agitprop: cultura política” organizado por Douglas Estevam, Iná Camargo Costa e Rafael Villas Bôas, e o livro “A hora do teatro épico no Brasil” de Iná Camargo Costa, publicado em 1996 e reeditado em 2016, pela Editora Expressão Popular. Há vinte anos, Iná Camargo iniciava um processo de revisão crítica em combate aos estereótipos depreciativos que desqualificavam o agitprop, projetando-o como algo autoritário e esteticamente rebaixado, imposto de cima para baixo e executado de forma alienada pela militância. Ao evidenciar o caráter radical da experiência de desmercantilização da arte e de organização social colocado em prática pelo CPC, Iná abria chaves de comparação com as experiências do passado. Enquanto na URSS, na Alemanha, na França e nos EUA o agitprop passou pela fase de organização do trabalho de socialização dos meios de produção das linguagens, inicialmente na ação de artistas, intelectuais e estudantes para, na segunda etapa, ser apropriado pelos movimentos da classe trabalhadora, propiciando um amplo e rico espectro de produções antes das experiências serem destruídas. No Brasil o processo foi aniquilado na fase inicial, dos primeiros anos de vida do Movimento de Cultura Popular (MCP), de Pernambuco, e do Centro Popular de Cultura (CPC). Estes processos foram destruídos pelo golpe militar-empresarial, na medida em que a classe dominante tinha absoluta consciência dos riscos implicados na apropriação dos meios de produção de bens simbólicos pelas Ligas Camponesas e pelos diversos sindicatos combativos dos operários.

“Agitprop: cultura política”, publicado em 2015, narra as experiências que precederam a narrativa de “A hora do teatro épico no Brasil”, de modo que, para os militantes e pesquisadores de nosso tempo histórico, se oportunizam novos caminhos de investigação da história das lutas da classe trabalhadora.

Ao final da sessão de lançamento os presentes foram informados que uma assembleia que acontecia no campus Darcy Ribeiro, com mais de mil estudantes da UnB, decidiu pela ocupação da reitoria em protesto contra o golpe e o conjunto de medidas regressivas, tal qual fizeram pela madrugada os estudantes do campus de Planaltina. A resistência dirá o que vem pela frente, mas nos fortalece saber que no passado, por exemplo, na URSS, estudantes de jornalismo criaram o Coletivo Blusa Azul, e inventaram o Teatro Jornal, e entre 1923 e 1928 apresentaram mais de 20 mil sessões para dez milhões de espectadores no território soviético, e em uma viagem para Alemanha deixaram no percurso mais de oitenta coletivos Blusa Azul formados. O passado pode inspirar a luta do presente.

Rafael Villas Bôas

Professor do Campus de Planaltina da UnB, integrante do Coletivo Terra em Cena e do grupo de pesquisa Modos de Produção e Antagonismos Sociais

Carta aos estudantes de Comunicação sobre Agitprop e a conjuntura do país

Entrei no curso de Comunicação da UnB em 1996. Somando graduação e mestrado passei sete anos na FAC. O fato de retornar no dia 31 de outubro para lançar o livro “Agitprop: cultura política” (Expressão Popular, 2015), organizado em conjunto com Douglas Estevam e Iná Camargo Costa, me levou a refletir sobre o curso em nosso país, e a relação dele com a democracia.

No período em que fui membro da diretoria do Centro Acadêmico da Comunicação (1996-1999) procuramos colocar em ordem os arquivos do CACOM, e descobrimos um debate, datilografado, sobre as origens dos cursos de Comunicação no Brasil, e sobre a proposta da Faculdade de Comunicação de Massas da UnB, tão pioneira quanto era o projeto geral da UnB, considerado a vanguarda da reforma universitária – uma das principais reformas de base defendidas pelos setores populares e que Jango indicava a intenção de com elas se comprometer quando seu governo foi destituído pela força das armas em 1964.

O conteúdo do material nos era revelador, levando em conta nosso estágio  inicial de formação e muito centrado nos aspectos técnicos da profissão. Estava dito ali que os cursos de publicidade foram criados no momento em que o processo de substituição de importações promovido na economia brasileira começava a inundar o país de mercadorias, e para isso, era necessário fabricar uma sociedade de consumo no país, estimulando desejos de consumo por mercadorias até então não necessárias para a reprodução da vida social.

Numa sociedade de maioria analfabeta e em transição forçada do campo para a cidade, a publicidade brasileira cumpriu papel importante na fabricação de sonhos de consumo e ambições de ascensão social. Os cursos de Relações Públicas eram criados para mediar as relações entre empresas e clientes: era necessário otimizar as relações de produção. Enquanto o curso de jornalismo era mais antigo, e tinha como função formar profissionais para serem absorvidos pelas empresas do ramo.

Escolhi o curso de publicidade, com pretensões artísticas, querendo empenhá-las em algo prático, antevendo certa função social para a venda de mercadorias. Com menos de três semestres estava trocando de curso, migrando para o jornalismo, porém, desencantado, ou menos ingênuo. Na época já estava envolvido com a pesquisa, integrando um grupo, incentivado por colegas mais velhos, sendo o principal deles o hoje professor do curso de Comunicação da UFPB,  Pedro Benevides.

No Jornalismo me lembro que volta e meia éramos chamados para assistir palestras de diretores e editores de grandes jornais da mídia empresarial. Era um furor! Parte dos docentes via os nomes consagrados da imprensa como os colegas bem sucedidos do mercado, enquanto a tarefa da universidade era formar os novos quadros para aquelas empresas. Se sentindo tão prestigiados, os editores falavam conosco como patrões futuros, com o tom superior de quem dá conselhos para quem quer se empregar naqueles meios. Como se fosse a ambição, única, de todos.

Era a época da chegada da internet no Brasil. Cartas postais ainda eram meios que usávamos para nos comunicar com colegas de outros cursos espalhados pelo Brasil, na militância dos encontros nacionais e regionais de comunicação. Não estava colocada a opção dos blogs alternativos, etc.

 Mas, naquele documento que descobrimos no CACOM ficamos sabendo, como um segredo na garrafa, que a Faculdade de Comunicação da UnB, bem como o conjunto da UnB, não tinha sido concebida para se tornar o que era naquele momento. As pretensões da Faculdade de Comunicação de Massas eram maiores, e os quadros do jornalismo, do cinema e outras técnicas e linguagens tinham planos de aprofundar os vínculos entre comunicação e democracia.

 O Brasil era um país que não tinha completado, na década de 1960, ainda o primeiro século da abolição da escravidão, que não fez a reforma agrária, não tinha alfabetizado a maioria da população e, naquele momento, era capaz de incluir apenas 1% da juventude no ensino superior.

Os professores que chegavam à UnB estavam comprometidos com as contradições e com os impasses do país, e queriam ampliar e aprofundar o sentido de suas áreas de ofício. Figuras como Pompeu de Souza, Nelson Pereira dos Santos, Jean Claude-Bernadet, Paulo Emílio Sales Gomes aqui aportavam, em sintonia com o projeto de país que amadurecia de baixo para cima.

Passados exatos vinte anos do momento em que entrei na UnB, estamos nós a viver um golpe midiático-jurídico-parlamentar-empresarial no país, que ameaça retroceder às frágeis conquistas da Constituição de 1988 e já dá exemplos do Estado de Exceção em que poderemos viver pelos próximos anos, ou décadas.

O monopólio dos meios de comunicação, a reforma agrária, a doutrina militar herdada do golpe de 1964, tudo isso poderia ter sido alterado em doze anos de governo federal comandado por um partido de centro-esquerda. Todavia, a opção pela conciliação de classes não permitiu o salto democrático e agora mostra as funestas consequências da opção. Os dispositivos do golpe de 1964 são os mesmos que, fortalecidos após 52 anos, operam para criar o estado de normalidade com que se impõe o atual estado de exceção. Não custa lembrar que a Rede Globo de Televisão foi criada com capital ilegal estadunidense um ano depois do golpe, em 1965.

A Globo e outras empresas da mídia empresarial, ou seja, aquelas mais interessadas na garantia de seus lucros que nas conquistas coletivas da democracia, conseguem façanhas no Brasil: transformam luta pela democratização dos meios de comunicação em sinônimo de gesto autoritário, quando escutam controle social da mídia reproduzem como ameaça à liberdade de expressão, omitindo o rigoroso controle exercido pela sociedade sobre a mídia na maioria dos países desenvolvidos. Também sabem atenuar a força destrutiva do projeto modernizador que defendem: falam de ruralistas, uma expressão meio bucólica, para se referir à junção dos arcaicos latifundiários com empresas transnacionais e fazendeiros brasileiros: “ruralismo” parece amenizar, conciliar o ser humano com a natureza, com os valores do campo quando na verdade o agronegócio amplia desigualdades, destrói em larga escala a natureza, depende do alto uso de agrotóxicos. A mídia brasileira produz peças de ficção que, no entanto, a despeito da irrealidade de seus significados, produzem a perversa função de legitimar a realidade desigual, e omitir as causas da desigualdade.

Nós aprendemos que o marketing é uma estratégia de vendas, e uma estratégia de comunicação com a sociedade. Me lembro de capas de livros de marketing com tanques de guerra, falando de táticas militares adequadas à venda de mercadorias. O marketing político se tornou a linguagem hegemônica, e atropelou a tradição política de busca do contato, do diálogo direto com as pessoas, que fosse também organizativo, por meio do trabalho de base.

O livro “Agitprop: cultura política” apresenta uma tradição de formas de comunicação com a população que eu não conheci no curso de Comunicação, mas que soube depois que, em outros países, o agitprop é disciplina de cursos, é área temática de pesquisas, etc. Traduzimos peças de Teatro Jornal do Coletivo Blusa Azul, formado por estudantes de Jornalismo, em 1923, na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Em seis anos, até 1928, o Blusa Azul se apresentou mais de vinte mil vezes, para mais de dez milhões de pessoas em território soviético e, após excursão pela Alemanha deixou mais de oitenta grupos formados naquele país. Os pesquisadores descrevem uma cultura política em que há protagonismo dos trabalhadores na produção de seus bens simbólicos, em que há consciência dos sindicatos sobre a importância de financiarem a produção cultural dos trabalhadores, sem ilusões de universalidade da produção de mercadorias culturais e ideológicas produzidas pelos meios de comunicação empresariais da classe dominante.

Essa experiência, que agora conseguimos disponibilizar por meio do esforço coletivo e voluntário de tradutores militantes, nos faz pensar sobre o rumo que nossa democracia tomou no país. Após o golpe, sob o impacto do acordo MEC-USAID celebrado pelos militares com o governo dos EUA nossas universidades foram sendo adequadas para a finalidade de capacitar a força de trabalho para as demandas do mercado, de tal modo que as experiências forjadas por aqueles que se contrapunham a esse projeto foram invisibilizadas ou secundarizadas. No Brasil, por exemplo, Augusto Boal construiu o Teatro do Oprimido reunindo um conjunto de técnicas em parte criadas por ele, e em parte recuperadas do repertório da agitação e propaganda, como o Teatro Jornal, mas por muito tempo nem sequer nos cursos de Artes Cênicas seu trabalho foi estudado com a profundidade que merece.

Pelos colegas da época de movimento estudantil que hoje são professores – Fernando Paulino, Thiago Quiroga e Sivaldo (UnB), Manoel Dourado Bastos (UEL), Pedro Benevides (UFPB), dentre outros – imagino que a luta pela democratização da comunicação deve estar mais fortalecida que há duas décadas atrás, entretanto, se cresceram as possibilidades de democratização dos meios de comunicação, no que diz respeito à produção e circulação de conteúdos, é certo também que o monopólio dos meios de comunicação continua eficaz em termos ideológicos, e forte em termos econômicos.

O desenvolvimento tecnológico não nos legou como consequência óbvia a democratização dos meios de comunicação. O poder no Brasil continua sendo uma mistura de concentração de terras, com concentração cruzada dos meios de comunicação, e poder de influência nos três poderes – executivo, legislativo e judiciário.

Todavia, as mudanças objetivas nas condições de produção, o maior acesso aos equipamentos de geração e transmissão de imagens, o espaço das redes sociais na internet, o perfil do contingente de novos professores de Comunicação, e a crescente descrença da população brasileira em relação à legitimidade das informações divulgadas pela mídia empresarial, associada a crise permanente do setor, fazem com que os padrões de mercado não imponham, como antes, a linha no horizonte que delimitava as fronteiras dos cursos de comunicação no país.

Por isso, tomar contato com experiências de comunicação popular de décadas passadas, que foram bem sucedidas nos propósitos que cumpriram, pode nos fazer indagar sobre a validade das apostas que fizemos, e nos propor caminhos até então desconhecidos, do encontro da comunicação com a democracia.

Brasília, 02 de novembro de 2016.

Professor Rafael Villas Bôas

Campus de Planaltina da Universidade de Brasília

            Pesquisador dos grupos Modos de Produção e Antagonismos Sociais

e Terra em Cena: teatro, audiovisual e educação do campo

Breve relato sobre insurgência estudantil em São Sebastião (DF)

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Fachada do IFB São Sebastião ocupado – Wilson Dias/Agência Brasil

            Hoje eu e a professora Rayssa Aguiar, ambos integrantes do Coletivo Terra em Cena, fomos participar de um debate sobre a conjuntura e falar sobre agitação e propaganda para o grupo de estudantes que participam da ocupação do campus de São Sebastião do Instituto Federal de Brasília (IFB).

            Ao chegar na cidade vimos um bloqueio da avenida principal pelos estudantes do “Centrão”, uma das escolas públicas da cidade, que se mobilizavam pela primeira vez sobre a crise política e as propostas que ameaçam a educação pública, encorajados pelas mais de 1000 escolas e institutos ocupados.

           Enquanto preparávamos o material de projeção para exibir filmagens de intervenções de agitprop escutamos as palavras de ordem de uma marcha que se aproximava. Eram os estudantes do Centrão vindo conhecer o IF ocupado, se solidarizar com a ação, aprender com a experiência, e participar da atividade de formação.

          A ocupação do IF de São Sebastião foi puxada por um grupo de meninas, adolescentes, e contou com o apoio de muitos estudantes, professores e técnicos. Ali estava, por exemplo, o coordenador de um dos cursos do IFB, colaborando com as mediações dos espaços de formação, respeitando o protagonismo da ação política das estudantes. O professor estava completamente ciente do salto no processo de formação daquelas estudantes. Volta e meia ele me dizia que era a primeira vez que tal ou qual menina pegava um microfone para falar numa reunião.

            Nos contaram que a mobilização no Centrão começou depois de uma visita de professores e estudantes do campus do IFB de São Sebastião. Com nove dias de ocupação aquela comunidade ocupada já dera início ao trabalho de base, e colhia naquele momento o primeiro resultado, com a visita massiva dos estudantes do Centrão. E antes disso, o campus de São Sebastião tinha recebido a visita de estudantes que estão ocupando o campus de Águas Lindas, do IFG. 

            Presenciamos uma conversa entre os dois grupos, coordenada pelas estudantes que puxaram a ocupação no IFB. A convicção sobre as razões da luta, o didatismo da explicação, a preocupação com a explicação do dia a dia da rotina da ocupação, desde a segurança, passando pelos espaços de formação política e técnica, até o diálogo com a sociedade, foi de impressionar.

          Falamos sobre as razões do golpe midiático-parlamentar-jurídico-empresarial, sobre as influências externas em razão de interesses geopolíticos (pré-sal), sobre os dispositivos do golpe de 1964 que não foram desativados e que, no contexto atual, foram fortes fatores de desencadeamento do golpe, e sobre o esquema explicativo de Naomi Klein, sobre a doutrina do choque,  que ajuda a entender não apenas a conjuntura nacional, mas também as práticas políticas do Governo do Distrito Federal, que investe na precarização das estruturas públicas para legitimar o argumento da necessidade da privatização ou, no mínimo, da gestão privada de estruturas públicas.

            Mostramos em vídeo uma intervenção de teatro invisível que a Brigada de agitprop Semeadores realizou em 2007, na Câmara Legislativa do GDF. Os estudantes viram com muito interesse. Conversamos sobre as táticas para diálogo com a sociedade, sobre os limites da democracia burguesa, sobre o sistema midiático monopolizado. Também falamos sobre o teatro jornal e outros métodos de agitprop e conversamos sobre possibilidades de intervenções, em diversos tipos de espaço.

            Se tivéssemos mais tempo, poderíamos ter feito o jogo do quebra-consenso, para treinar com os estudantes os argumentos pró e contra as propostas, e simular diálogos com a comunidade, em reuniões, em assembleias, e criar situações simuladas de entrevistas para mídia empresarial, discutindo os mecanismos de edição, de manipulação.

            Há diversas oficinas ocorrendo, com muitas pessoas se voluntariando para ensinar o que sabem, a partir da demanda dos estudantes. Lyvian, atriz da Cia Burlesca, está coordenando uma oficina de teatro. Professores vão até lá aprofundar a compreensão do que está em jogo com a PEC 241, etc.

            Em síntese, é uma experiência formativa de alta intensidade concentrada em poucos dias, muito aberta para articulações, para intercâmbios, e que demanda receber o máximo de solidariedade possível para que se fortaleçam diante das inúmeras formas de pressão que estão sofrendo, pela mídia, por diretores, pelo governo, pelas famílias, pelos que não aderiram.

          Por assumirem uma posição enquanto sujeitos políticos, suspendendo o tempo das estruturas em que aprenderam a conviver como clientes, como usuários passivos, os estudantes se deslocaram da visão acomodada sobre o lugar das coisas no sistema, e se percebendo em luta, vendo como os que lutam são hostilizados, se abre um amplo espaço de compreensão propenso ao fortalecimento de muitas articulações com outros segmentos, disposto a manter o acúmulo quando as ocupações cessarem e a vida “voltar ao normal”.

         Elas e eles têm plena consciência de que estão participando de um momento histórico, que podem abalar o governo federal com a insurgência em escala nacional, e não estão dispostos a parar antes de lograrem conquistas objetivas.

Rafael Villas Bôas

Golpes: a permanência autoritária na política brasileira

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O Golpe de Estado é a única instituição confiável no Brasil: no século XX foi empregado diversas vezes e em 2016 já convivemos com a primeira edição do século XXI. O STF pode ser moroso, o MPF é seletivo e o Congresso, corporativo. Mas o Golpe de Estado se destaca por sua infalibilidade. Em qualquer momento que suspeitem-se de aspirações democráticas, em que a correlação de forças não penda para a minoria privilegiada, sempre haverá um golpe a ser sacado pela classe dominante, como carta na manga. Florestan Fernandes definiu o processo conservador da modernização periférica brasileira como um ciclo permanente de contrarrevoluções preventivas.

O pré-golpe pode ser confuso. Invocam-se valores, bandeiras e camisetas nacionais, quando, na verdade, se propõe a subordinação econômica e política à interesses internacionais, como a entrega do pré-sal para petroleiras e lobbys privados. Se invoca o apartidarismo, quando são os fundos partidários que financiam carros de som e bandeirinhas. Ali estão os investigados da Lava-Jato defendendo o fim da corrupção. O grampo e o vazamento ilegal são permitidos porque são em defesa da democracia e dos direitos. É preciso combater a corrupção, pois ela consome os nossos impostos. Impostos como aqueles que o sócio da FIESP, financiadora dos protestos, não paga. O pré-golpe pode ser obtuso.

Mas o golpe, não. Este é transparente. Após a abolição da escravatura, numa perfeita analogia, Machado de Assis escreveu que a “escravidão levou consigo as máscaras”. Se referia as máscaras usadas para penitenciar os negros escravizados, mas também as máscaras de uma sociedade que se dizia liberal e admirava a “liberdade, a igualdade e a fraternidade”, mas não via problema algum em escravizar outro ser humano, um “menos igual” que não merecia a nossa irmandade como humano. O golpe também nos permite desfazer das máscaras: sem o disfarce da ideologia, nos deparamos com o espetáculo da desfaçatez da dominação, frente a frente.

Às favas com os escrúpulos, teria dito Jarbas Passarinho na sessão que aprovou a criação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 1968. “Às favas com os escrúpulos” é a palavra de ordem dos golpistas. Em qualquer época. Em qualquer golpe.

E não é preciso que o golpista suje as mãos. Basta insinuar. Quando secretarias e ministérios que tratam de direitos humanos, negros e mulheres são extintos – setores também ausentes de um ministério cujo primeiro critério é agradecer os votos do impeachment e o segundo é garantir foro privilegiado – assim como pastas para a agricultura familiar e programas sociais, o governo sinaliza qual o lugar que eles devem ocupar nesta sociedade: nenhum.

E o que sinaliza a nomeação do Ministro da Justiça? Se não vejamos: Alexandre de Moraes é conhecido por ter sido parte do governo de São Paulo – aquele que liberava catracas do metrô para atos pelo impeachment – e considerava atos contra o impeachment como “ações guerrilheiras”. Uma de suas últimas ações como Secretário foi ordenar a desocupação de escolas públicas, sem mandato, pela polícia militar paulista contra uma horda de selvagens e perigosos… adolescentes, estudantes secundaristas.

Basta o gesto para sinalizar aos demais que antipatizam com direitos e democracias para que a senha seja entendida. Em Goiás, integrantes do MST estão presos, acusados de apologia ao crime. O crime, no caso, é organizar famílias para ocupar uma fazenda de um senador cearense em Goiás, cujo valor misteriosamente é muito superior aos ganhos e patrimônios do mesmo. No Pará, terra da impunidade e da violência no campo, a Polícia Militar convoca seus integrantes para o “I Curso de Intervenções estratégicas em movimentos sociais”, para apropriar-se do “emprego de ações preventivas e repressivas” frente a estes movimentos. Não a toa. Afinal, a Polícia que assassinou 19 trabalhadores rurais sem terra, com ônibus financiados pela Vale do Rio Doce, misturando jagunços em seu efetivo e sem nenhuma identificação, tem o know-how necessário para estes tempos.

Todavia, apesar de na aparência a coisa toda parecer esdrúxula, mal ajambrada, a manobra vai se consolidando. Por trás da aparência de precariedade, que confere certo ar de amadorismo, de impulso espontâneo, há já devidamente desvendado, um procedimento de cartilha em aplicação no Brasil, testado anteriormente, na América Latina, ao menos em Honduras e no Paraguai. O tal do golpe branco, ou golpe democrático, que derrubou os governos eleitos do hondurenho Manuel Zelaya e do paraguaio Fernando Lugo. Um método que tem se mostrado bem sucedido no desmonte do sistema democrático do único país do continente americano que integra o bloco dos BRICS. Isso ocorre enquanto, simultaneamente, outros dois países do Bloco, Rússia e África do Sul, também padecem de manobras de desestabilização de seus governos1.

A capacidade da elite brasileira importar modas das metrópoles adequando-as às suas convenções e interesses permanece muito eficaz: desde o atentado de 11 de setembro de 2001 e da reação do governo estadunidense com o Ato Patriótico, a direita brasileira tenta de forma oportunista se aproveitar do clima de pânico causado pelo terrorismo para convencer a população brasileira de que é necessário adotar medidas preventivas contra esse tipo de ataque em nosso país. Mas o alvo da direita é outro: querem considerar os movimentos sociais brasileiros como movimentos terroristas, como meio de judicialização e prisão àqueles que executarem ações radicais contra a expropriação de direitos da classe trabalhadora.

A doutrina da Lei de Segurança Nacional, que justificava a repressão arbitrária contra cidadãos do país, supunha o combate ao inimigo interno, movimentos comunistas e socialistas. Novamente, agora sob o nome de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), se reedita com força no momento de instauração do golpe o discurso de que a ameaça de estabilidade do país vem dos movimentos sociais de massa com capacidade nacional de luta mediante o emprego de diverso repertório de ações diretas.

O alardeado Plano Nacional de Inteligência2 produzido semanas depois do governo interino assumir é uma das provas incontestes que a manobra regressiva do golpe vinha desde muito sendo planejada por representantes daqueles mesmos setores que desfecharam o golpe de 1964. Até mesmo a figura do alcaguete querem eles recuperar no, supostamente moderno, plano: É importante que as capacidades individuais e coletivas, disponíveis nas universidades, centros de pesquisa e demais instituições e organizações públicas ou privadas, colaborem com a Inteligência, potencializando sua atuação e contribuindo com a sociedade e o Estado na persecução de seus objetivos”.

O estado de exceção vai se estabelecendo com a competente neutralização da capacidade de indignação da classe trabalhadora produzida pela mídia empresarial, no mesmo compasso em que toma providências para fortalecer o aparato repressor reincorporando na vida política nacional representantes do meio militar que, depois de apeados do poder em 1985, não abandonaram a doutrina estadunidense da Guerra Fria, e ansiavam por maior protagonismo na vida nacional. Voltamos a conviver com tipos xerifes do patriarcado de velho oeste, como o general que virou ministro do Gabinete de Segurança Institucional, que promete proteger a cidade dos bandidos, no caso, os movimentos sociais brasileiros.

No alvo da regressão em curso a educação pública brasileira começa a ser atacada pela mídia golpista como dispendiosa, excessivamente ideológica, pouco eficiente e propostas de privatização do ensino vão ganhando força no mesmo compasso em que proposições autoritárias como o “Escola Sem Partido” ganham os holofotes da imprensa e com isso vai aparecendo como algo discutível, passível de ser aceito.

O primeiro golpe brasileiro do século XXI é diferente do golpe de 1964, desfechado à cinquenta e dois anos. Sem tanques nas ruas para conter os revolucionários e comunistas, a artilharia da mídia, que primeiro criou um clima de angústia, instabilidade e urgência, agora se empenha na produção de uma atmosfera de normalidade, patriotismo e segurança. Nada melhor do que as Olimpíadas no meio do caminho para, inclusive, assimilar como componente da paisagem urbana, os tanques e soldados fortemente armados: estão a proteger quem de quem?

* Manoel Dourado Bastos é professor no Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina; Miguel Enrique Stédile é coordenador do Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária; Rafael Villas Boas é professor do campus de Planaltina da Universidade de Brasília. Membros do Grupo de Pesquisa Modos de Produção e Antagonismos Sociais (https://modosdeproducao.wordpress.com).

1 Sobre o assunto, indicamos dois textos de Pepe Escobar: Brasil e Russia sob ataque. Disponível em: http://blogdoalok.blogspot.com.br; O Brasil como epicentro da Guerra Híbrida. Disponível em: http://www.viomundo.com.br/politica/pepe-escobar-o-brasil-no-epicentro-da-guerra-hibrida.html

2 Decreto nº 8793. Política Nacional de Inteligência, disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2016/Decreto/D8793.htm

Cartas do exílio e a forma de narrar de Cecília Thumin Boal

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Augusto Boal. Reprodução: IMS

Rafael Villas Bôas[1]

Numa tarde fria e chuvosa de 20 e junho de 2016, dentro da pequena sala do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, onde está a exposição Cartas do Exílio, Cecília se pôs a falar para uma plateia interessada, que lotava a sala repleta de cartas, fotos e cartazes.

Pelas cartas de Augusto Boal podemos perceber o gesto da disciplina intelectual de elaborar, sempre, sobre as contradições da realidade em que vivia e com a qual se defrontava. No diálogo com companheiros, como Chico Buarque e Guarnieri, estava sempre a compartilhar sentimentos, impressões, e a combinar trabalhos conjuntos, publicações, peças, músicas. Proletários artistas profissionais, empenhados na melhor divulgação dos seus trabalhos, buscando meios de sobreviver na adversidade, agindo como propagandistas contra o golpe no exterior.

A ligação com organizações políticas, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a Aliança Libertadora Nacional (ALN), era também uma característica comum. Tempos menos fragmentados: o trabalho intelectual não estava à serviço de carreiras individuais, a realidade não era apenas objeto de análise.

Mas, naquela tarde estava Cecília a discorrer sobre as cartas: o homem com quem viveu e trabalhou, a ditadura, o exílio e seus múltiplos traumas, ressaltando todavia as possibilidades que a experiência proporcionou à família. De todas as formas como a história pode ser contada, Cecília evita aquelas cujo encaixe de sua presença no processo ou à destaque, ou a reifique, no lugar tradicional da mulher de um grande homem.

Diante de nós estava uma atriz e uma psicanalista, a mulher por quem Boal se apaixonou e levou uma vida junto. Uma trabalhadora que não se vangloria contando os espetáculos em que atuou. O desavisado não saberá por ela, mas pelo cartaz da montagem de “Arena conta Zumbi”, que lá estava ela no elenco, e também de muitas outras peças em diversos países.

Por intermédio de uma carta de Boal para a mãe ficamos sabendo que, por vezes, era ela que bancava a casa – o exílio marcado pelas dificuldades econômicas, com seu trabalho de atriz nas montagens de sucesso que participou.

A condição de psicanalista – a audiência soube por ela que definiu na França abandonar a carreira de atriz porque já não aguentava a cada mudança de país ter que aprender com fluência a língua para poder atuar – confere à narrativa de Cecília um ponto de vista terno e distanciado, tanto sobre a relação de Boal com a mãe, quanto sobre a projeção de culpa que carregou diante do impacto do exílio sobre os filhos dela e Boal.

Essa condição, agregada ao fato de ser argentina, também lhe permite um comentário distanciado sobre o Brasil e seus pactos: de silêncio sobre o passado, de conciliação cordial no presente. Países que promoveram rupturas radicais em seus processos formativos carregam na cultura, na sociabilidade, legados desse gesto. O impasse da conciliação permanente como gesto político não é um dilema de nossos países vizinhos como é para nós, brasileiros.

Por isso ter Cecília entre nós elaborando sobre os (nossos) traumas é uma oportunidade de grande aprendizado: sem vitimização, sem heroísmo, a narrativa de Cecília vai nos mostrando uma personagem fundamental, não apenas do passado, mas do tempo presente.

Esse tempo do agora extravasou os limites da exposição, do período da resistência à ditadura e da expectativa com a democratização. As pessoas perguntavam sobre o Instituto Augusto Boal, sobre a eficácia do Teatro do Oprimido como meio de formação e resistência. Alguns, como o estudante Andrey, do Levante Popular da Juventude, não apenas perguntava, mas dava depoimento de suas experiências com o método.

Cecília e Julian Boal puderam então abordar as redes, os encontros, em que estão ativamente envolvidos. Aqui termino, como testemunha da forma produtiva que ambos têm se colocado no cenário do teatro político contemporâneo: contra a cômoda posição de herdeiros do legado do mestre, os dois, mãe e filho, trabalhadores do teatro – Julian também como pesquisador, fazendo doutorado sobre o tema – têm se colocado como articuladores, mediadores, potencializadores de encontros  intercontinentais entre grupos e movimentos sociais. Por exemplo, ocorreu o Encontro Internacional de Teatro do Oprimido na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), de 27 de junho a 01 de julho de 2016, reunindo cem pessoas de oito países e mais de vinte grupos praticantes de Teatro do Oprimido. E o II Seminário Internacional Teatro e Sociedade (SITS), da Rede Teatro e Sociedade, ocorrido na Universidade de Brasília, de 14 a 17 de dezembro de 2015, em que Cecília ministrou uma das cinco oficinas, compartilhando como era o método de interpretação desenvolvido pelo Teatro de Arena, em que ela atuava como atriz e Augusto Boal como diretor.

O empenho de Cecília e de Julian não é o de, tão somente, publicizar uma forma bem sucedida de teatro, mas de questionar a todo momento o limite e a potência das formas e métodos, sempre em contraste com as possibilidades do tempo histórico em que vivemos, e com as condições objetivas de sobrevivência do Teatro Político na atualidade. Sem a reivindicação de um protagonismo espetacular e hierárquico, vão a maneira deles ligando o passado ao presente, promovendo encontros, dando palestras, ministrando oficinas, organizando exposições, construindo elos essenciais.

 

[1] Professor da Universidade de Brasília, integrante do Grupo de Pesquisa Modos de Produção e Antagonismos Sociais e do Coletivo Terra em Cena.